sexta-feira, 25 de outubro de 2013

O GRANDE ESPÍRITO DAS ÁGUAS - A LENDA DE NARCISO




O céu nublado no início da primavera prenunciava o despertar do colorido da primavera. Narciso, longe da aldeia, sentiu a relva molhada sob os pés descalços, e o cheiro do húmus espalhado no ar emprestava-lhe uma sensação de paz. Olhou à sua volta, com os olhos bem arregalados, querendo sentir cada espaço em torno de si. Estava completo e esplêndido. Seus dois olhos grandes, negros e firmes, fixaram-se na água do lago, e a espuma, sob a chuva de verão, movimentava o seu reflexo de forma intermitente, latente, num brilho inconstante. Mas, aquelas ondulações não o incomodavam, pois a sua imagem era tudo que ele queria ver, colorida, com pinceladas de arte implícita, vontade de um deus, um ser supremo, um artista insatisfeito. Ah, sim. Era como ele via os deuses que criaram tudo quanto havia na terra.

A chuva havia cessado fazia algum tempo e, em meio à natureza, Narciso se sentia estranho naquela manhã, como se uma fúria houvesse passado pelo vale. No entanto, percebia algo novo nascendo. O torpor inesperadamente cessou, mas aproximaram-se os mandarins do desejo, invocando uma fúria contida no seu âmago, saindo do seu corpo e tocando a água mansa e esverdeada, e buscando as sombras que contornavam o lago. Os mandarins diziam-lhe que o sonho era eterno; diziam-lhe, ainda, que a vida nasce a cada instante sem pedir nada, a não ser o amor.

Como que levado por uma torrente, ele caminhou na direção das margens do lago. O mundo todo estava ali no lago: corpos e fantasmas. Do lado de fora, tudo parecia um vazio pastoso, escorregadio que ele não conseguia compreender ou mesmo associar. Real, apenas seu corpo nu e perfeito, e ele o desejava como nunca desejou nada na vida. Queria tocar aquela imagem no fundo do lago, por que ela era só sua e ninguém mais deveria desejá-la ou tocá-la. Seu desejo se aprofundava, esganiçando-o, e o hálito do lago o envolveu num longo suspiro até que um frio trespassou seu ser, dando-lhe uma sensação de medo e dúvida. Dúvida sobre toda a sua vida. Será que ela tinha sido real, ou seria, apenas, uma brincadeiras dos deuses?

Contudo, Narciso sabia que o seu destino só se completaria quando se integrasse com a sua imagem, quando pudesse transpô-la do etéreo para a solidez do corpo. Lá estava ela: embalando-se no frescor da água, dançando como num palco iluminado e decorado, esperando os aplausos, muitos deles, incautos e, outros poucos, atentos.

Narciso meditou por um longo tempo, como o poeta que busca palavras para o seu poema ou filósofo para suas conclusões. Olhou, novamente, tudo em volta: a chuva havia deixado o cheiro do húmus e, com ele, a sensação de que tudo iria se transformar; o céu, em branco e cinza, ganhava contornos azulados; e feixes de luzes desciam sobre o lago, procurando suas profundezas. Ele se abraçou, sentindo um leve arrepio.

Iniciou-se uma algazarra de pássaros, e Narciso se levantou, sabendo o que precisava fazer. Sentia medo, mas a paixão era maior. Recordou-se, nostálgico, do seu destino até aquele instante: filho de um deus, destinado a ser um semideus. Mas, na verdade, era vítima de um castigo, pois herdara a beleza dos deuses e o destino cruel dos homens. Amado, admirado e mortal. Ah, destino cruel que dá aos mortais a beleza e, depois, a leva embora sem dó nem piedade!

A mãe de Narciso, a mais bela de todas do povoado, desaparecera-se no tempo, tomada pelo remorso, pela paixão, envelhecida e solitária. Mas, Narciso vivera sua infância, livre, ao lado dela. Somente adolescente, compreendeu o seu destino, diferente dos outros: era o ser mais perfeito da aldeia e tantos o amavam, quanto tantos o odiavam. Soube, então, que era fruto de um amor proibido, que nascera da paixão entre um deus e a jovem mais bela da aldeia. Quando soube do seu trágico destino, caminhou sem rumo por um longo tempo, até que, cansado, parou junto ao lago para saciar a sede e, enquanto sorvia a água, deparou-se com a sua imagem balançando e passou, ali, o resto do dia, admirando-se. Isolou-se de tudo e de todos. Deixava sua casa, todos os dias pela manhã, e só voltava à noite. Passava o dia junto ao lago, alimentava-se de frutas e, nos dias de chuva, escondia-se numa cabana que construíra junto à mata.

As jovens da aldeia se uniam em pequenos grupos e, escondidas entre as folhagens, admiravam-no a banhar-se nas águas do lago. Elas voltavam para casa suspirando e se indagavam sobre qual delas seria, um dia, a escolhida dele. Narciso sabia que elas estavam olhando-o e sentia prazer em se mostrar para elas.

“Todos envelhecem - pensou olhando as pessoas velhas da aldeia - e a beleza desaparece dos seus corpos para sempre”. Novamente seu espírito se conturbou e andou, por um longo tempo, ainda mais taciturno, até o dia em que sua mãe lhe disse que seu pai a visitara e anunciara-lhe que estava a negociar com Zeus a possibilidade de torná-lo imortal. Narciso voltou a sorrir e viveu tempos de glória em que todos à sua volta sentiram a sua felicidade. Ele acreditou firmemente que seu pai conseguiria a imortalidade que ele tanto desejava e, no lago, tinha longas conversas com a sua imagem.

Um dia, numa tarde suave, estava de pé, às margens do lago e sentiu uma presença atrás de si. Virou-se, imaginando que fosse uma das jovens da aldeia. Mas era um ser diferente. Tudo nele era perfeito, transmitia-lhe paz e uma sensação jamais experimentada antes. Compreendeu que ali estava seu pai e sabia que ele viera lhe trazer a notícia da sua imortalidade. Passaram o resto da tarde juntos e Narciso soube como era a vida no Olimpo: entediante, em constante disputa pelo poder, eterna, cansativa. Uma verdadeira vida palaciana. Soube, quando a noite já descia, que continuaria mortal. Seu pai abraçou-o e se foi, dizendo-lhe que aquela era a única vez que estariam juntos, por ordem de Zeus.

Narciso odiou Zeus, como nunca havia odiado nada na vida. Tornou-se quieto, desprezando todos à sua volta. O tempo passou até que a sua mãe, triste e desiludida, suspirou nos seus braços. Ele a levou para a colina, na parte mais alta, cavou uma cova e lá depositou seu corpo em protesto a Zeus.

Durante muitas noites, sonhou com as guerras instigadas pelos habitantes do Olimpo e a imagem de um deus implacável rondou seu sono como uma sombra pesada. Mas, quando a luz do dia despontava, voltava para o lago e deleitava-se com a sua imagem, amiga fiel e indelével.

Numa manhã, olhou o povoado, os aldeões saindo para trabalhar, a fumaça fluindo das chaminés, mulheres gordas deixando suas casas com roupas para serem lavadas, os meninos correndo no meio da terra e as jovens com os cabelos trançados e com roupas brancas, falando de coisas fúteis. Foi para o lago e um grupo de moças o seguiu. Ele parou em frente à margem, livrou-se dos trajes e as jovens suspiraram mais uma vez. Ele olhou para trás e encontrou os olhares furtivos que o admiravam. Elas fugiram, envergonhadas. Narciso olhou a água pura e divagou sobre a existência, concluindo que tudo era um sonho, água, emoções e vadios interlocutores perdidos em desejos imunes e secretos. Viu todos os seres humanos vagando na água, incólumes, extasiados. Viu a vida nascendo da água e os seres, sublimes e perfeitos, flutuando, contorcendo-se, gemendo com o prazer que vem das entranhas da terra e penetra as entranhas do ser humano. E a sua imagem era tudo.


As lembranças terminadas, Narciso sentiu que o lago o chamava, pois lá estava a sua imagem, sua maior paixão. Mergulhou. Um mergulho profundo em busca da imortalidade. O lago se fechou, num redemoinho imenso, e um brilho ofuscante desceu do céu. As jovens, que voltavam para casa, viram o céu mudar de cor e ouviram uma espécie de música vinda da direção do lago. Decidiram retornar e lá não mais viram Narciso, somente suas roupas estavam sobre a relva. Mas a estranha melodia continuava, nascendo do meio da água, e elas choraram, pois compreenderam que não mais veriam Narciso. Quando a melodia parou, formou-se um círculo no meio do lago e, do centro dele, brotou uma flor, de incomparável beleza e aquelas jovens batizaram-na de a Flor de Narciso. E essa flor, a partir de então, brotou em todos os lagos do mundo e passou a se chamar, simplesmente, Narciso.



Texto de Pedro Paulo de Oliveira.


A Lenda de Narciso foi escrito em novembro de 1998

Imagem atual: arrakis-melange





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