sexta-feira, 8 de novembro de 2013

O ESCRITOR





Cá estou eu preso no tempo e no espaço, envolto pelos meus fantasmas, um pouco sossegado e, às vezes, melancólico. No fundo, sozinho, carrego meus traumas e são eles os meus fantasmas. Por isso, tornei-me um ermitão. Mas, nunca estou sozinho e posso provar isso ao longo do pouco que tenho para expor meus pensamentos neste instante.

Não faz muito tempo que construí esta minha cabana. Desenhei-a, primeiro, em meus pensamentos e ela foi se erguendo, madeira sobre madeira, madeira ao lado de madeira. Foi até fácil. A paisagem que escolhi, já estava, há tempos, guardada em meu âmago e bastou-me fechar os olhos para encontrar as montanhas verdes e úmidas que pareciam inatingíveis olhadas de longe, azuladas.

Encravei os troncos na terra úmida e logo a cabana estava de pé. Uma construção tosca, quente no inverno e amena no verão. O dormitório, a sala, o escritório e a cozinha formavam um único aposento, cheio de luz e cores. Só o banheiro foi construído separado, espaçoso e bem iluminado, com uma banheira próxima da janela. Nunca gostei de banheiros pequenos. Em volta da casa, construí um jardim; mais ao fundo, um pomar; na frente, deixei as árvores nativas. Minha cabana passou a fazer parte da paisagem.

Francisca, esposa de um lavrador da região, mulher simples, de poucas palavras e muita sabedoria, todos os dias caminha durante uma hora, cuida das minhas refeições, da arrumação da casa, das minhas roupas e, logo depois do meio-dia, despede-se e vai embora.

Levanto cedo, gosto do inverno. A natureza adormecida obriga-me a escrever mais e passo o dia sobre a escrivaninha, ao lado da janela e, de vez em quando, levanto os olhos na direção da paisagem. Durante a noite, aqueço-me diante da lareira lendo Graciliano Ramos ou Gabriel Garcia Marques. 

Quando vem a primavera, tudo muda, o mundo à minha volta se transforma. Deixo um pouco o casulo e vou cuidar das plantas. É quando eu a espero. Sei que ela não virá; está além dos meus braços; e dos meus olhos. Mesmo assim eu a espero e sempre vou espera-la, imaginando que, quando ela chegar, o seu perfume vai se confundir com a fragrância das flores e invadir tudo, tomar conta da minha vida e do mundo. Eu estarei adormecido, ela chegará com um vestido longo e transparente. É como eu gosto de vê-la chegando, provocante, sensual. Abrirei os olhos e verei seu corpo sob o tecido, cortado pela luz do sol da manhã. Tomaremos café juntos e ela me falará das suas viagens, das suas alegrias e das suas tristezas. Depois, suavemente, ela deixará seu corpo pender sobre o meu e, com ardor e paixão, se entregará por inteira aos meus desejos.

Mas, ela se vai, como não veio... É apenas uma miragem, daquelas que vislumbramos no meio do deserto, morrendo de sede. Mesmo assim, gosto da primavera, do cheiro que ela trás, das cores que mudam lentamente, do orvalho que escorre por todos os lados e das primeiras chuvas, batendo no telhado, balançando os galhos desfolhados, formando pequenas poças.

No verão faço longas caminhadas e recomponho-me nas águas do lago, por longas horas, completamente nu. Quando vem o outono, algo novo me contagia: meu ser se prepara para uma espécie de hibernação. Volto a escrever freneticamente e, nas vezes que saio, junto madeira para o inverno – fico meio parecido com as formigas. - e caminho sobre as folhas secas. A chuva, que no verão me manteve tantas vezes dentro de casa, está longe, caindo em outras plagas, regando outras plantas, acordando outras vidas.

Pressinto que logo voltará o inverno e terei, talvez, terminado mais um livro. Não sei se o mundo vai aprecia-lo. Espero que sim, pois é o que melhor sei fazer, é o que melhor posso deixar para a posteridade. Vivo com os meus personagens. Eles são gerados e vivem à minha volta, riem, choram, amam, matam, violentam; são pobres, ricos, formam exércitos; e são mortais, tal como eu. Essa é a minha vida, essa é a minha sina... Eu sou o escritor.

Texto de Pedro Paulo de Oliveira.

Imagem: superdowload
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