sábado, 2 de novembro de 2013

O MATADOR DE SONHOS - PARA ISABELA


Para Isabela Pavani Castilho, 18 anos, que foi baleada na cabeça na rodovia Presidente Dutra, em Guarulhos (SP), na noite de terça-feira (29), e que morreu na madrugada deste sábado. Seus órgãos foram doados para que outros sonhos possam continuar vivos





Meus olhos espreitam...

Quero roubar o sonho,
Quero arrancar o sorriso
Quero levar a vida.

Eu não sonho,
Eu não tenho vida,
Miserável que sou
Nas entranhas das trevas
Que me consome,
que me leva.
Eu bebo, eu cheiro
Eu sorvo,
Eu roubo.

Minha alma se perdeu,
não tenho piedade,
não sou filho, não sou pai...
meus irmão se foram...
Esqueci do amor,
perdi o perdão.

Sou o atroz...
Covarde desgraçado!...
Minhas palavras são poucas

Consumidas pelo ópio.
Meu olhar não gosta do seu olhar.
Não me olhe!
Sou o seu juiz
Sou o seu carrasco.

Por quê?
Não me pergunte.
Aprendi a matar,
Sou o espírito das trevas,
Seu desassossego,
Seu terror,
Seu cadafalso,
Sua pena de morte.

Quero matar seu sonho,
Por que não posso sonhar;
Quero sua vida,
Por que não tenho vida.

Hoje, vou caçar
Destroçado pela alucinação...
Pego a estrada,
Escolho a vítima,
Quero tudo que ela tem...
A vítima?...

Não merece viver.
Escuto suas súplicas...
Que idiota!
Eu sou o senhor da vida.

É uma donzela
Seus olhos brilham,
Ela é bonita,
Ela tem sonhos...
Mas seus sonhos não são meus,
Ela me olha nos olhos,
Não gosto, sou escória.
Decido se ela vai viver.

Tenho o poder nas mãos,
Sinto-me excitado...
Comprimo meus dedos,
Escuto a explosão...
A donzela ainda me olha,
Ela chora.
Lágrimas no brilho do olhar que se apaga.

Eu sou o mal encarnado,
a sua desventura...
não cruze o meu caminho,
Não me olhe,
Eu não gosto do seu olhar,
se cruzar o meu caminho
eu levo a sua vida,
eu mato os seus sonhos.


COMENTÁRIOS:

Após ponderar sobre tantas tragédias e tomar conhecimento da morte de Isabela, de forma brutal e covarde, tentei, como escritor, transcrever o que sente um assassino mordaz, cruel e implacável diante das vítimas indefesas. Quero, com isso, mostrar para o mundo, do outro lado, do lado do carrasco, que todas essas mortes foram praticadas de forma covarde e que alguma coisa tem que ser feita para mudar a situação de horror que a nossa sociedade está vivendo. Talvez, com um olhar mais profundo sobre os sentimentos desses algozes, as autoridades possam mudar essa realidade brutal e sanguinária vivida pela maioria dos brasileiros.


Texto de Pedro Paulo de Oliveira.

Imagem: R7
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