quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

MEMÓRIAS III (FRAGMENTOS DO LIVRO “JANELAS QUEBRADAS”)




Ele era assim: tinha um jeito especial de falar, de contemplar as pessoas, de gesticular e de gostar da gente. Seus olhos, que brilhavam como os do menino que busca além da sua fronteira, nunca sossegavam, procurando o novo no horizonte, tentando aprender mais do que já sabia. No final da tarde nos reuníamos para ouvi-lo contar causos.

Suas mãos... Ah, suas mãos! Tantos desenhos nelas!... Riscos, rabiscos, marcas de todos os seus dias.

Escondido no seu âmago estava um mundo, consciente de que a sua vida não fora em vão: seus filhos se espalharam como sementes ao vento ou levadas pelos pássaros, germinando em outras terras, gerando novos frutos e novas sementes. Às vezes, vendo-o com os braços apoiados no parapeito da janela de madeira tosca, olhando a Serra dos Dois Irmãos, sabíamos que ele estava pensando nos filhos e netos distantes, desgarrados das suas mãos e do colo da sua amada Ester. Nesses instantes, seus olhos pequenos e verdes como os da nossa mãe, brilhavam e se misturavam com a claridade do dia.

No final da tarde, o cheiro de fermento vivo espalhava-se pela casa, exalado da massa sovada pelas suas mãos hábeis de padeiro. Antes que a aurora surgisse, no forno de tijolo em forma de meia lua, ele jogava as brasas, esperava o calor entranhar-se no barro e colocava a massa inchada durante a noite para assar. O Aroma de fermento, agora aquecido, acordava-nos juntamente com os primeiros raios da manhã. Na mesa, o pão, o café, o leite, a manteiga e o seu sorriso suave, inesquecível que se abria devagar e entrava pelas nossas almas de criança.



Texto de Pedro Paulo de Oliveira.

Imagem: Ponto 50
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