segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

A ÚLTIMA PÁGINA.




Vejo-te no silêncio dos meus sonhos,
não quero acordar do meio dessa bruma
de onde, envolta em mistérios,
o mistério da vida,
tu voltas teimosamente, intensamente,
sempre como da primeira vez
Olhando-me encantada,
encantando-me.
Seguravas um livro, fingias-ler,
decodificavas meu corpo...
Seduzias-me, enlaçavas-me,
enredavas-me na tua teia
iniciando a minha morte,
lenta, consciente, venturosa...
Morte em fogo, fim ditoso de todo ser apaixonado.

Agora, apenas sonho, pois que, um dia,
ao ver-te abrolho reverberando o sol,
eu nasci, eu vivi...
Despertar para que, se o sonho me consola?
Não era eu o que padecia o instante fútil
E tu, parecendo desatenta, me olhastes?
Teu parecer nada mais era do que pura sedução!
Meu despertar - meu nascer - foi naquele instante
e tu fizestes meu parto...
Fui parido pelo teu olhar.

Mantenho meus olhos cerrados,
meu corpo adormecido
para ver-te sempre,
repetindo o mesmo gesto,
acariciando meu rosto,
tocando meus lábios
sobre a espuma macia,
na alcova, sorrindo,
rindo do meu tremer.
Lembro-me e relembro:
entrei dentro do teu corpo
Com a fúria de um titã
e tuas pernas roliças, retesadas,
fecharam-se em mim.
Teu gemido vazou a vidraça,
Por onde a lua chegava,
Ínvida e redonda.

Dançarinos?... Sim.
Dançamos para o mundo
num palco colorido,
de mãos dadas,
mariposas deslumbradas,
depois da torrente,
ofuscados pela luz,
em meio à floresta,
a madeira úmida,
a vida brotando da terra
passado o vendaval.

Um dia, sorrindo ainda, te fostes:
insinuavas, não percebi.
Lias o livro no último capítulo.
Dissestes-me, naquela partida,
Que nunca me deixarias,
Impregnada que estavas em mim...
Súbito, senti uma dor, um vazio.
Mentias.
Desaparecestes na multidão,
voastes para longe...
olhei para o céu,
senti que o ser nascido esmorecia
em tênue morte
e tu vivias em meus sonhos,
Num crescendo sutil e perene,
Resto de paixão,
que para isto serve a paixão:
para matar e sonhar.
Tormento?
Não... Apenas o momento estático
na alcova, entrelaçados,
em êxtase.


Texto e imagem de Pedro Paulo de Oliveira.

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