quarta-feira, 22 de maio de 2013

A INOCÊNCIA E O ÓBVIO DA VIDA



Era uma daquelas tardes frias de primavera, quando a natureza, refletindo o resto da luz do dia, exala uma fragrância suave e enternecedora. Havia caído uma chuva leve e minha pequena neta Ana Clara olhou para o céu e me disse, com os olhos brilhando:

---Vovô, o céu está arrepiado e cheio de carneirinhos!

Algo extraordinário ocorreu naquele instante. Compreendi, um pouco, o sentido da vida, o porquê do amor que nutrimos pelas pessoas e a razão dos sentimentos que nos transformam em seres melhores, dotados de enternecimento e vontade de lutar e aprender. Aquela menina pequena, morena, de cabelos longos e olhos negros e amendoados, representava a inocência.

Depois, ela sorriu, abraçou minhas pernas e eu fiz uma viagem interior por países como a Etiópia, Haiti e Angola; e no Brasil, pelo Vale do Jequitinhonha e favelas espalhadas pelas grandes metrópoles. Vislumbrei tantas vidas olhando o céu, inocentes, em primaveras com gosto ocres, sobre escombros formados por bombas, em meio a corpos mutilados, ensanguentados e sem vidas. Vislumbrei existências órfãs, com o mesmo brilho nos olhos da minha pequena Ana Clara. Indaguei-me das razões que levam os seres humanos a se tornarem tão cruéis e insensíveis. Naquele instante não encontrei a resposta. Mas os pássaros me responderam no final do dia. Vi-os cantando para a vida, ajudando a perpetuar a primavera. Simplesmente faziam isso sem precisar destruir a natureza. Percebi que a ambição é a causa dos maiores males da humanidade. O ser humano jamais se contentará em tornar sua existência como a da criança e a do pássaro, por que o mundo está nas mãos de pessoas incapazes de ver que a nossa vida é apenas um momento sublime de encontro com a terra; que a vida é a dívida da própria vida, principalmente quando tentamos encontrar o nosso eu e nos deparamos com o inusitado: um olhar, um toque, uma estrela cadente... E temos vontade de abandonar tudo e partir em busca do desconhecido, sem compreender a razão.

É preciso coragem para sentir como as crianças e eu parabenizo a todos os heróis dotados de sentimentos puros que, mesmo sabendo que o perigo sempre os acompanhará, teimam em continuar a lutar pela preservação de uma existência digna para todos os seres humanos e, mesmo que lhes custe a vida, lutarão até o fim.



Pedro Paulo de Oliveira
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