terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

A MORTE DO PAPA JOÃO PAULO I, O PAPA SORRISO E O PODER DO CARDEAL RATZINGER.




A eleição havia terminado no vaticano e a fumaça subia pela chaminé. O novo Papa estava escolhido e, para surpresa dos radicais e conservadores da Igreja Católica, ele era o humilde e sereno Albino Luciane, um homem que jamais havia almejado ser papa. Confessor de homens poderosos e extremamente rígido com as causas sociais, Albino Luciane não era o homem indicado para ser papa diante de uma igreja enfiada em escândalos financeiros, morais e sociais.

A princípio, atônito, Luciane teria declinado de aceitar o pontificado. No entanto, fora persuadido do contrário pelo cardeal holandês Johan Willebrands que, sentado a seu lado na Capela Sistina, teria lhe dito: "Coragem! O Senhor dá o fardo, mas, também, a força para carregá-lo"!

Aquele instante de surpresa prenunciava, contudo, uma tragédia: o pontificado do homem humilde e especial haveria se ser curto, marcado pela morte e pelo mistério. Um mês após ser entronado, Albino Luciane - João Paulo I – o Papa Sorriso - estava morto em condições que, talvez, nunca sejam esclarecidas.

Um dos inúmeros boatos surgidos após a morte de João Paulo I diz que seu pontificado entrara em choque com ideias e interesses da Opus Dei. Durante o funeral, foram ouvidos fiéis aturdidos, que diziam: "Quem fez isso com você?", "Quem o assassinou?", já desconfiando de que a morte do Papa Sorriso não decorrera de causas naturais.

O jornalista britânico David Yallop publicou em 1984, após longa pesquisa, a obra Em nome de Deus (In God's Name), na qual oferece pistas sobre uma possível conspiração para matar João Paulo I. A dar-se crédito às fontes de Yallop (que incluem inúmeros clérigos e habitantes da cidade do Vaticano), João Paulo I esboçara, no início de seu breve pontificado, uma investigação sobre supostos esquemas de corrupção no IOR (Istituto di Opere Religiose, vulgo Banco do Vaticano). Logo após eleger-se papa, ele foi colocado a par de inúmeras irregularidades no Banco Ambrosiano, então comandado por Roberto Calvi, conhecido pela alcunha de "Banqueiro de Deus" por suas íntimas relações com o IOR (o corpo de Calvi apareceu enforcado numa ponte em Londres, quatro anos depois, por envolvimento com a Máfia).


Entre os envolvidos no esquema de Calvi, estaria o então secretário de Estado do Vaticano e Camerlengo, cardeal Jean Villot, o mafioso siciliano Michele Sindona, o cardeal norte-americano John Cody, na época chefe da arquidiocese de Chicago e o bispo Paul Marcinkus, então presidente do Banco do Vaticano. As nebulosas movimentações financeiras desses homens não passaram despercebidas pelo Papa Sorriso. Sem falar em supostos membros da loja maçônica P2, como Licio Gelli (vale lembrar que pertencer a essa comunidade secreta sempre foi e ainda é considerado motivo de excomunhão pela Igreja Católica).

A Cúria Romana como um todo rechaçou o perfil humilde e reformista de João Paulo I. Diversos episódios no livro corroborariam essa tendência: o Papa Sorriso sempre repudiou dogmas, ostentação, luxo e formalidades; para ficar num exemplo, ele detestava a sedia gestatória, a liteira papal (argumentando que, por mais que fosse o chefe espiritual de quase um bilhão de católicos, não se sentia importante a ponto de ser carregado nos ombros de pessoas). Após muita insistência curial, ele passou a usá-la.

Seria no entanto importante referir que, quando o Cardeal Luciani ascendeu a Papa, o seu estado de saúde encontrava-se já bastante deteriorado.

Segundo Yallop, em 29 de setembro de 1978, João Paulo I anunciaria a remoção de Marcinkus, Cody, Villot e alguns de seus asseclas – o que poderia deixá-los à mercê de processos criminais. Mas Sua Santidade não acordou para levar a cabo as excomunhões: diz-se que teria sido encontrado pela freira Vincenza, que o servira por 18 anos e que sempre lhe deixava o café todas as manhãs. Naquele fatídico dia, no entanto, ela ficara espantada com o fato de o Papa não ter respondido ao seu Buongiorno, Santo Padre (Bom-dia, Santo Pai); desde os tempos de padre em Veneza, ele nunca dormira além do horário. Notando uma luz acesa por trás da porta, ela entrou nos aposentos do Papa e o encontrou de pijama, morto, com expressão agonizante, na cama.


Numa ação rápida, assim que os gritos da freira ecoaram pelo palácio, os pertences pessoais do Papa foram de imediato removidos por Villot que surgiu do nada, como uma assombração. Entre eles, as sandálias do papa. No livro, é defendida a hipótese de que as sandálias estariam manchadas com vômito – um suposto sintoma de envenenamento.

Yallop cita a digitalina (veneno extraído da planta com o mesmo nome) como a droga usada para pôr fim ao pontificado de João Paulo I. Essa toxina demora algumas horas para fazer efeito; Yallop defende que uma dose mínima de digitalina, acrescentada à comida ou à bebida do papa, passaria despercebida e seria suficiente para levá-lo ao óbito. E, para o autor de 'Em nome de Deus", teria sido muito fácil, para alguém que conhecesse os acessos à cidade do Vaticano, penetrar nos aposentos papais e cometer um crime dessa natureza.

Resta-nos a compreensão de que os interesses daqueles que detêm o cetro do poder religioso não mudaram em nada: conjuram, mentem, roubam e matam.

a prova maior dessa teia pegajosa enredada em volta da Igreja Católica está nos últimos acontecimentos que marcaram a renúncia do Papa Bento XVI. Bento XVI à época da morte de João Paulo I, era o Cardeal Ratzinger, um dos homens mais importantes da Igreja Católica, presidindo nada mais e nada menos que a poderosa Congregação Para a Doutrina da Fé. Foi dele o trabalho e os bastidores que elegeram Karol Wojtyla, o Papa João Paulo II. Depois da morte de João Paulo II, ele se tornou papa. Depois de um pontificado marcado pelo radicalismo, declarações polêmicas, escândalos de proteção a padres pedófilos e corrupção financeira em todas as autarquias do Vaticano, ele renunciou, num golpe de mestre e, mais uma vez, elegeu um papa, segundo seus preceitos.

A renúncia de Bento XVI foi mais um golpe político nos seus adversários do que simplesmente um ato de humildade. Ele se viu enfraquecido física e mentalmente. Viu a morte se aproximando e percebeu que, morto, não poderia conduzir, com garantia a sua sucessão. Assim, avisou que deixaria o pontificado e, ao estilo de Maquiavel, conduziu com maestria a sua sucessão. Deixou que o mundo especulasse e os cardeais conjurassem. No entanto, já estava decidido, entre os seus fiéis seguidores, quem seria o novo papa: Jorge Mário Bergoglio, que se auto denominou Papa Francisco ou Francisco I.

O novo papa, é um fiel seguidor dos preceitos de Bento XVI desde os tempos da Congregação Para a Doutrina da Fé e o Cardeal Ratzinger tem plena consciência disso. Na sua casa de repouso ele curte seus últimos dias sabendo que a sua influência sobre a Igreja Católica, que se iniciou logo após o Concílio Vaticano II, ainda perdurará por muitos anos.

Mas o que tem a ver a influência do Cardeal Ratzinger com a morte de João Paulo I? Talvez a resposta para o mistério que envolve, até hoje, essa morte, esteja na casa de repouso onde descansa Bento XVI, no brilho dos seus olhos fundos e nos seus gestos cadenciados.


Por que a Igreja Católica faz questão de esquecer esse papa ao, mesmo tempo. santifica João Paulo II? Foram raras as vezes em que o Cardeal Ratzinger falou de Albino Luciane como membro da Cúria Romana, como servo de Deus e como o Papa João Paulo I. Pelo contrário, sempre quis ofuscar a sua imagem com o brilho do seu sucessor. O Servo humilde de Deus, o Papa Sorriso, o homem que teve coragem de enfrentar a máfia do Vaticano, parece fadado ao esquecimento. Essa máfia, hoje, não é novidade para ninguém, pois foi denunciada pelo próprio Bento XVI antes de renunciar ao trono e entronar Francisco.



Texto de Pedro Paulo de Oliveira
revisado em 12 de Fevereiro de 2016.

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