quarta-feira, 2 de março de 2011

SOLDADO DO ORIENTE

Era uma vez um jovem e orgulhoso pastor de ovelhas... Ele morava numa casa caiada de branco e uma palmeira fazia sobra na sua fachada. Sua pele era queimada pelo sol e pelo ar seco. Ele trabalhava, caminhava todos os dias pela terra, respirava, se alimentava, tinha sede, tinha necessidades fisiológicas, dormia. Era um ser que, como qualquer outro ser vivo, sentia o vento na pele e o aroma da vida; era um ser que olhava as estrelas e, como todo mundo, não entendia a imensidão do universo; ele era um ser concebido do encontro de um homem com uma mulher; foi amado pela sua mãe; teve infância; e sonhou com um mundo justo para si.

Naquela terra onde ele morava ele vislumbrou uma jovem certo dia e ambos se enamoraram. Ele a amou e foi amado por ela; ambos se casaram e se entregaram de corpo e alma numa noite cálida. Doravante viveu a felicidade, sorriu e, como filho, pretendeu ter filhos e os concebeu com a mulher amada.

Ele era, como a maioria dos seres humanos, alguém que gostava de trabalhar e ser respeitado; ele queria apenas o mínimo necessário para viver com dignidade. Mas a guerra estava se anunciando, vinda do ocidente! Ele, certamente, não queria a maldita guerra, pois sabia que o seu povo, massacrado por séculos de incoerências e governos déspotas, lutava apenas para sobreviver. Mas, o imperador do ocidente preparou o dragão da morte e incitou-o a cuspir fogo no seu povo cansado e humilhado. O imperador convenceu o mundo que a sua terra precisava ser libertada do julgo do tirano.contudo, o imperador, também, era um tirano, e o seu povo não queria um tirano por outro tirano.

Ele era um ser peculiar, como peculiares são os povos do Oriente, onde o sol castiga a terra, onde as tempestades não são de água e, sim, de areia. Ele era um ser que andava descalço e a areia escaldante já não lhe queimava a sola dos pés. Acreditava em Deus e sua crença era no Deus do amor e da guerra. No final das contas, amava a sua terra, se exultava com a sua gente e sempre vivia na esperança de tempos melhores. Mas acreditava, também, no Deus da guerra! Ele não sabia e não entendia a razões da guerra que se anunciava. ele não comprrendia, mas a história da humanidade é feita de amores, paixões e guerras.

O imperador do ocidente, contudo, não relevou os sentimentos da sua gente, alegando que a guerra era necessária para extirpar da terra o tirano que ameaçava a humanidade. Mas aquele ser acreditava que atacar seu país e massacrar seu povo jamais resolveria a crueldade que paira em todos os cantos da terra. Ele sabia que, por trás da intenção do imperador, havia o desejo insano de subjugar a maior parte da humanidade a uma condição de dependência do poder imperial. O império do ocidente precisa de colônias subjugadas para saciar a fome dos especuladores espalhados pelo mundo.

Ele compreendeu que tudo estava consumado, o império já havia se instalado com as suas armas. A guerra começou. No céu, os zumbidos e as luzes surgiram inesperadamente. Ele, então, foi ao seu quarto, empunhou sua arma, abriu a porta da sala, despediu-se da sua família e embrenhou-se pelas ruelas da sua cidade. Aquele homem acabava de se transformar num soldado; era um ser como muitos e com muitos sonhos; era forte e orgulhoso; e foi à guerra... Ele não voltou para casa e perdeu seus sonhos numa batalha, uma maldita batalha, uma sangrenta e covarde batalha. Sua vida foi desfeita e misturou-se à terra árida e poeirenta de um campo de batalha qualquer do Oriente. Morreu... É... Foi apenas mais um que morreu. Apenas mais um!... Mais um dos milhares que morrem diariamente nas guerras sem nem mesmo compreender as razões que os levaram as batalhas.
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