sábado, 19 de janeiro de 2008

TRIBUTO A JOÃO

TRIBUTO A JOÃO

Meu caro irmão. Estive pensando que poderíamos ter nos falado mais, contado mais casos, termos ficado mais juntos e, no final, eu ter impedido seu coração de parar de bater.
Sei o quanto você sonhou, sei o quanto sonhava até poucos instantes antes de partir. Queria poder agarrar seus sonhos, levá-los, entrega-los às suas filhas e à sua esposa, faze-los reais.
Naquele Natal você se foi. Logo no Natal, meu irmão? No Natal em que falamos de realizar desejos, de renovar esperanças e de sermos felizes? Mas neste Natal de 1.997 despedimo-nos de você, meu caro irmão.
Ora, lembro-me que a vida nos separou tão cedo, pelas agruras e decepções e perdemos parte de nós pelo tempo afora. Mas com o tempo colhemos pedaços e, na distância, nos reencontramos.
É... Esse Natal com certeza levou seus sonhos, deu-nos sua imagem serena e a certeza de que você nunca deixou ser aquele adolescente com sonhos impossíveis, realizados nos filmes assistidos nas madrugadas. Você não conseguiu envelhecer e deu ao mundo suas filhas e lutou como ninguém por elas – Tatiana e Ana Carolina.
Você era o João...; o Bosquinho dos anos setenta que penteava os cabelos com brilhantina, fazia serestas pelas ruas de Andrelândia com o Baiano e o Wilson e dançava bailes no clubinho.
Um dia você subiu no Trenzinho Mineiro – o Misto – galgou a serra, desceu-a pelo outro lado e desembarcou na cidade grande – Barra Mansa – que não tão grande era - no Estado do Rio de Janeiro, e só voltou às terras mineiras um pouco de cada vez.
Quando você se casou estávamos todos lá, a igreja repleta. Você usava um terno azul-marinho e a sua esposa, a Rosângela, estava toda de branco. Nasceu Tatiana. Eu estava lá para batizá-la, assim como você veio batizar o meu filho Augusto.
Seus sonhos tornaram-se, então, grandes: abriu, em Barra Mansa, sua própria farmácia. Mas as coisas não deram certas e ela foi fechada e você voltou a trabalhar de empregado, pois tinha uma família para manter. Mas surgiu uma oportunidade de ter outra farmácia na cidade de Cruzília, pertinho de Andrelândia, e você foi e levou sua família. Lá, todos o respeitavam, gostavam mesmo de você. Até que um dia apareceu um pilantra e convenceu-o a aceitá-lo como sócio e levou embora mais uma parte dos seus sonhos. Novamente você voltou com a sua família para Barra Mansa e tornou-se escravo do trabalho.
Um sonho sempre o perseguia: acertar na loteria. “Vou acertar, meu irmão! Aí todos nós vamos sair do sufoco.” Dizia-me você sempre.
Nossas conversas eram longas através do telefone e seus sonhos sempre estavam presentes nas suas frases entrecortadas pelas perguntas que me fazia sobre nossos irmãos e nossos pais. Contudo, apesar de seu grande amor, seu coração pedia socorro e você não lhe dava atenção. Ele estava dilacerado, cansado.
Quando sua filha Ana Carolina nasceu ninguém acreditou. Depois de praticamente 16 anos!...A Rosângela, mesmo com mais de 40 anos, suportou e lhe deu a linda Ana Carolina. Você era o homem mais feliz da terra. “Agora preciso trabalhar dobrado.” Afirmou, olhando aquela criaturinha no berço.
Os anos se passaram e lembro-me de você com os olhos brilhando sobre a Tatiana e a Ana Carolina. Mas seu coração continuava a pedir socorro e você não lhe dava ouvidos.
No final de novembro de l997 falamo-nos muito, estivemos juntos aí na sua casa e no seu trabalho e os seus sonhos continuavam todos aflorados. Voltei para Andrelândia e ouvi-o, novamente, naquele domingo, 21 de dezembro de 1.997, e senti que uma sombra rondava sua vida. Sua voz estava embargada, suas perguntas eram para saber da nossa mãe, do nosso pai, dos nossos irmãos; falou-me, com muito carinho, das suas filhas; do novo apartamento; e pediu-me que convencesse a nossa mãe a passar o Natal com em Barra Mansa. Não pude fazer isso, mas enviei-lhe o meu filho Augusto para que ficassem juntos. Você ainda reclamou que o seu peito ardia e supliquei-lhe que procurasse ajuda médica. Foi em vão. Você não percebeu, mas seu coração lhe dizia que estava cansado, que precisava de mais oxigênio, emoções boas: olhar os campos, as flores, o mar, os jardins, o céu azul.
Aquele era o último aviso. Então você foi embora sem dizer-nos adeus, sem dar-nos um abraço, sem um aceno. Acho que pensou: “Uma hora eu volto”.
Andei pensando nos seus sonhos, andei pensando no amor que você sempre nutriu pelas pessoas. Acreditei que eles haviam se acabado. Depois compreendi que estava errado, ao fixar suas filhas: ali estava vivo todos os seus sonhos, tudo pelo qual você sempre lutou. Seu sonho continuava vivo e latente. Sua voz e o brilho dos seus olhos continuariam naquelas daquelas duas meninas. É... você está vivo meu caro irmão.

Um abraço para VOCÊ.

Pedro Paullo.
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