quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

PARTE DO PRONUNCIAMENTO FEITO POR PEDRO PAULLO - E DE SUA AUTORIA - DURANTE A SESSÃO SOLENE DA CÂMARA MUNICIPAL DE ANDRELÂNDIA, NO DIA 28/12/2.007

A CORAGEM DE RESGATAR E PRESERVAR A HISTÓRIA.



Como conhecer a si mesmo e a um povo sem conhecer a própria história? 

 

 

 

 

            Desde o início dos tempos a humanidade buscou o autoconhecimento através do resgate das próprias raízes e, ao se deparar com lacunas, experimentou um sentimento de frustração muito grande e homens e mulheres, dotados de sensibilidade, iniciaram uma busca interminável do passado. Nas inscrições das grutas e cavernas - que este pedaço do mundo chamado Andrelândia guarda nas pedras da Serra de Santo Antônio - descobrimos que, a milhares de anos, no nosso íntimo, necessitávamos deixar para a posteridade a base dos nossos costumes, os aprendizados que adquiríamos e, acima de tudo, as provas da nossa existência.
               Nenhum ser humano nasce e se torna adulto para nada. A existência, por si, repleta de nuances, encontros e desencontros, recriações e descendências, tem para um propósito. Contudo, poucos absorvem esse entendimento e, num dado momento, a historia se perde - por descuido de muitos - ou é destruída por ignorância e insensatez de homens públicos, através do abandono, da guerra ou da ganância, que transformam em pó ou cinzas obras de artes, edifícios e livros e relíquias sem preços.Não podemos simplesmente acreditar que seremos uma verdadeira sociedade se não preservarmos a nossa história e, se preciso for, resgatá-la, mesmo a custo de desencontros com interesses financeiros de grupos ou pessoas.
            Já avançamos demais em nossos conhecimentos para não crermos que é a partir da preservação, que pode se dar após a restauração de um bem, que encontraremos um caminho mais justo e fortalecido para vivermos em sociedade, pois saberemos onde erramos – e aprenderemos com esses erros, para não os repetirmos – e perpetuaremos e aperfeiçoaremos os acertos.
              Resgatar a história e preservá-la exige, de quem o faz, uma dose de coragem, pois, certamente, no percurso da busca pela verdade, que muitas vezes é mascarada por interesses escusos, encontramos resistência dos detentores do poder, ou mesmo de pessoas ou grupos poderosos. Por quê? A resposta está no fato de que muitos acontecimentos que se passaram em determinadas épocas não foram corretamente transcritos por conta de que os seus personagens foram membros de enredos vergonhosos. Mas a teimosia de homens e mulheres audazes tornou possível saber que muitos dos nossos heróis, cantados ao longo dos tempos, não passaram de verdadeiros facínoras, presidentes da república corruptos, generais que não participaram de nenhuma guerra e que mandavam para os campos de batalha pobres inocentes, em sua maioria índios e negros, e líderes que só fizeram enganar uma multidão em detrimento dos seus próprios interesses.Mas dentro das nossas veias pulsa a angústia pela verdade e, juntando os pedaços que o tempo nos legou, conseguimos desmascarar as mentiras, somos capazes de resgatar personagens esquecidos e que deveriam, a muito, estar homenageados; podemos recontar a história de forma clara, legando aos nossos contemporâneos a grandeza de um tempo, ou a sua decadência.
              Cidade do Turvo. Quem já ouviu falar? Muitos aqui presentes, com certeza. Outros, não têm nem ideia de onde fica esse lugar. Mas ele existe. Tem uma história densa que poucos outros lugares do mundo têm semelhante. É uma cidade de políticos poderosos, sede de distrito que governa Carrancas, Cianita, Bom Jardim, Arantes, São Vicente... Mas tudo começou em meados do século XVIII, quando dois homens, André da Silveira e Manoel Caetano, olharam as Serras – hoje denominadas da Natureza, do Serrote e do Santo Antônio; uma cachoeira que serpenteava morro abaixo a que chamaram de Cachoeira das Bicas; um rio estreito, de águas agitadas e quase opacas - e denominaram-no de Rio Turvo. - Decidiram, então, instalar suas fazendas nessa região. Mais tarde, conseguiram do Bispo de Mariana ordem para construir uma capela no lugar onde hoje se encontra a nossa Matriz - e entregaram-na à devoção da virgem Maria, com o Título de Nossa Senhora do Porto. Iniciava-se o processo de nascimento da Freguesia de Nossa Senhora do Porto do Turvo que, inicialmente, pertencia à cidade de Aiuruoca. Mais tarde, Antônio Belfort de Arantes, o Barão do Cabo Verde, deixou Aiuruoca e ascendeu para essa recém criada Freguesia e conseguiu sua elevação para Vila Bela do Turvo. Mas foi só no ano de 1868 que o filho do Barão de Cabo Verde, Antônio Belfort Ribeiro de Arantes, conseguiu transformar a Vila em cidade, passando a se chamar simplesmente “Turvo” (em homenagem ao rio de águas turvas que atravessava o município recém-criado) após ter construído, dois anos antes, com seus próprios recursos, o Prédio da Câmara e Cadeia Pública.Muito poderia se falar, didaticamente ou não, do período que se sucedeu ao nascimento da Cidade do Turvo. Mas deixo a todos o privilégio de saborearem a leitura de três livros importantes da nossa história: Andrelândia – Fatos de sua vida político-social, de Álvaro de Azevedo; Andrelândia-Vultos e Fatos, de Paulo César de Almeida; e Aspectos Históricos da Terra de André, de Marcos Paulo de Souza Miranda. Quanto ao último autor aqui cabe destacar sua competência ao resgatar o nome de Manoel Caetano da Costa, - certamente responsável, também, pelo nascimento do Município do Turvo - enviando para o Prefeito da nossa cidade, no ano de 2.005, modelo de Projeto de Lei em comemoração aos 250 da fundação do nosso município. O projeto foi acatado pelo prefeito que, destarte, o enviou à Câmara de Vereadores que o aprovou por unanimidade. No seu art. 5º declara como Unidade de Conservação Ambiental, denominado Parque Ambiental Manoel Caetano da Costa, a porção de terras públicas situadas às margens do Rio Turvo Pequeno, além de tornar o dia 27 de dezembro feriado municipal – o Dia do Fundador – em homenagem a André da Silveira. Colocou, ainda, sob proteção permanente a Igreja Matriz de Nossa Senhora do Porto da Eterna Salvação, destacando-a como a gênese do nascimento da nossa terra.
                  A Cidade do Turvo, portanto, é a nossa cidade; ainda com o seu rio de águas turvas singrando pelos vales – meio desrespeitado pelos esgotos e entulhos; - com os seus casarões e casas antigas que teimam em ficar de pé – inventariados pelo Município e sob a vigília do Ministério Público; - e com a Serra da Natureza – devastada, mas que ainda se azula quase no oriente. Turvo, que em 1.930 passou a se chamar Andrelândia em homenagem a André da Silveira e que não conseguimos deixar, mesmo quando somos obrigados a navegar em outros portos.

PEDRO PAULO DE OLIVEIRA.
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