sábado, 2 de janeiro de 2010

O GRANDE MISTÉRIO DA VIDA

A chuva torrencial marcou a passagem de 2009 para 2010. Podia senti-la pela janela do apartamento, nos respingos que entravam e molhavam a minha face, enquanto ouvia as explosões dos fogos de artifício no Parque Halfeld, em Juiz de Fora. Meus pensamentos se voltavam rapidamente no tempo, imaginando, que no dia sete de dezembro,por volta das oito horas da manhã, um motorista perdia o controle de seu carro com destino a Andrelândia. Queria, como pretenso escritor que sou, descrever aquele momento, pois dentro daquele veículo estava Fernanda, a minha neta primogênita. Mas sinto-me incapaz.

Comunicaram-me o acidente por volta das onze horas e me disseram que ela estava gravemente ferida, com politraumatismo craniano, dentro de uma ambulância, rumando para Juiz de Fora. Procurei pelo Augusto - meu filho, pai da Fernanda,contei-lhe o que estava se passando e fui até minha casa ao encontro de Cássia, minha esposa. Partimos - os três - ao encontro do inesperado, pedindo a Deus que não levasse aquela criança para Si.

Acredito que Deus ouviu todas as preces que pediram pela vida da Fernanda e decidiu que ela deveria ficar junto de nós, nesta terra de homens e mulheres. Contudo, foram longos e intermináveis dias de angústia, velando na Santa Casa de Juiz de Fora por aquela criança dotada de energia e sonhos, com a vida por um fio - segura por Deus - e nas mãos habilidosas do Doutor Sérgio Souza.

Poderia descrever a dor da Evilane, mãe da Fernanda, mas não será necessário. Basta imaginar a dor dilacerante que uma Mulher sentiu ha mais de dois mil anos ao ver seu Filho sendo torturado, suspenso e pregado numa cruz. A dor do meu filho, não ouso tentar descrevê-la, pois basta ser pai - pai de verdade - para saber a amplitude do amor que une as descedências.

No sábado acordei e ainda era madrugada. Pude vislumbrar através da janela aberta, a lua brilhando intensamente, como um espelho redondo no firmamento. Pensei nas razões que provocaram o acidente, e pedi a Deus que arrancasse do meu coração a mágoa e me fizesse apóstolo do perdão. Voltei a dormir.

Na manhã de sábado, dia dois de janeiro de 2010, sentei-me defronte à Igreja do Senhor dos Passos, uma contrução românica, erguida no pátio da Saanta Casa, com a sua torre pontiaguda apontando para o inifnito. Sob o céu azul, nuvens muito brancas e baixas pareciam querer tocar aquela torre, formando um quadro quase surreal com a copa frondosa das árvores. Obsevei os homens e as mulheres num vai-e-vem constante, com os seus óculos escuros, trajando bermudas e tênis, e conclui que eles pouco ou nada se importavam com a cena do céu extremamente azul, com as nuvens brancas, com a torre da igreja ou a copa verde das árvores. Voltei meus pensamentos para todas as tragédias causadas pelas chuvas nos últimos dias, mas principalmente naquelas que ocorreram na passagem para o novo ano. Olhei novamente para o alto e lá estavam a torre da igreja, as nuvens e a copa das árvores. Agradeci mais uma vez a Deus pela salvação da Fernanda e permaneci silencioso diante do mistério da vida.
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