quarta-feira, 29 de julho de 2009

FLOR NO ORIENTE

O solo preto de carvão diante dos olhos atônitos da menina
Que, antes, afável, embalava seus sonhos no jardim florido da primavera.
A cortina de fumaça trespassando a alma e sufocando o grito de agonia
Da perda incontida das vidas inocentes.

A solidão é perene com a visão dos corpos mutilados nos destroços de cimento.
A menina caminha devagar, olha tudo à sua volta sem compreender a dor
Que ao longe se faz presente no clamor dos derrotados.

A paisagem se alarga com a vida quase extinta
Na órbita do olhar infantil e aterrorizado
Que pede socorro num brado mudo e desamparado

Na ingenuidade olha onde dantes era o jardim
E os folguedos se avivam na neblina poeirenta
Que envolve os soldados que vasculham o nada.

No solo chamuscado uma flor teima ainda viva,
Arrebatada pela pólvora e largada ao acaso pelo descaso de quem não a viu.
A menina se ajoelha e pega a flor ao lado de um corpo sem vida
E o soldado, de pé, no meio da neblina, olha assustado,
Vira-se, atira.
A pequena menina segura a flor e o soldado, agora, vê seus olhos brilhando
Num último lampejo de luz e doçura.

Poesias Esparsas – Pedro Paullo – 2.009
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