quarta-feira, 1 de maio de 2013

O ESTRANHO DESTINO ILUMINADO DE ASCÂNIO



Conheci Ascânio numa dessas viagens inusitadas, onde tudo dava errado. Chovia torrencialmente havia três dias, desde 16 de setembro de 2001, quando o mundo ainda se sentia estarrecido com o impacto das explosões das Torres Gêmeas nos Estados Unidos, e que levou milhares de almas para outro planeta. É isso: as almas quando deixam os corpos, sejam elas juvenis, adultas ou velhas, vão para outro planeta onde está localizado o tão sonhado paraíso, ou o nirvana ou o céu.

Eu, na verdade, precisava chegar a São Tomé das Letras de qualquer jeito. Meu carro, uma velha variante II, não ajudava. Batia pino e deslizava com os seus pneus carecas no meio do barro, subindo a serra que parecia dar no topo do mundo. A água descia do céu como se caísse de uma cachoeira e formava uma corredeira marrom na estrada de terra que levava até o meu destino. A noite já se aproximava e o som dos trovões me assustava. Começou uma ventania infernal e o meu velho condutor balançava para os lados, resistindo, a duras penas, à subida íngreme. Não houve uma maneira de terminar aquela viagem sem que a noite chegasse. E ela veio assustadora, com os relâmpagos triscando no céu e o vendaval mandando galhos nos vidros do carro.

Faltando pouco mais de cinco quilômetros para chegar à cidade, escutei um estalo no motor da velha amiga. O motor passou a soar como uma máquina de picar cana e perdeu mais da metade da sua força. Eu estava ainda no meio da mata e dava para avistar um descampado. A chuva havia dado uma trégua, diminuindo de intensidade. Encostei-me a um trecho plano da estrada, abri um pouco a janela do carona para o vento entrar e desembaçar os vidros e decidi que ficaria ali até o dia amanhecer. Eu podia tentar ir a pé até a cidade. Mas, o veículo estava cheio de medicamentos, brindes, minha mala e minha pasta de trabalho. Como deixar todo esse material à mercê de algum ladrão que aparecesse todo feliz para levar meu patrimônio de viagem? Patrimônio de viagem de vendedor é o seu carro – velho ou novo -, e o resto que descrevi. É disso tudo que ele tira o seu e o sustento da sua família. O vendedor é um errante que leva um pouco de si para onde vai.

Aquela noite estava fadada ao inusitado na verdadeira concepção da palavra. Sentia-me demasiadamente cansado, depois da penúria subindo a serra, após uma longa viagem pelas Rodovias Fernão Dias e Vital Brasil, saindo de Cambuí.

Vendedor prevenido leva uma matula. A minha continha pão com mortadela, banana e guaraná. Abri-a, olhei para o lado de fora e vi que a chuva havia cessado de vez. Saí, urinei e comecei a comer, quando percebi algo estranho se movendo no meio da mata. Caramba! Aquilo me deixou muito assustado. Era uma aparição que se movia rapidamente na minha direção em forma de um grande morcego. Corri para dentro do carro, joguei a matula no banco e apanhei um porrete que sempre carregava debaixo do banco. – Como se aquele pedaço de pau ensebado e comprido fosse me salvar de algum bandido armado com uma pistola ou peixeira. - No entanto, eu escutei uma voz que me pediu:

---- Moço, não se assuste. Moro nestas bandas e vi seu carro parado. Vim ver se precisa de alguma coisa.

Foi então que vi o sujeito. Liguei os faróis que refletiram nele: um homem de meia idade, metido num imenso capote preto, fechado do peito até os pés por uma fileira de botões prateados e com a cabeça coberta por um chapéu, também preto, e com as abas que mais pareciam asas de morcego. Sem se importar com a luz, ele se aproximou do carro, do lado de onde eu estava ainda assustado, e iluminou meu rosto com o fogo de um isqueiro de querosene. Vi os seus olhos que me fixavam, pequenos, verdes e brilhantes. Ele soprou a chama, apagando-a e me disse:

---- Eu moro logo ali no alto, naquele descampado. Vamos até lá que carro não é lugar pra descansar.

Eu estava apavorado. O que levaria um sujeito a querer ajudar alguém no meio da noite, na escuridão, em um mundo tão pessoal e amedrontado? Contudo, a minha intuição mandava que aceitasse a ajuda daquele estranho. Eu respondi-lhe que não sabia se o carro aguentaria chegar até o local onde ele morava. Ele foi categórico:

---- Aguenta, sim. Esse motor está velho e cansado. Mas, ele é seu amigo.

Liguei o velho amigo e ele começou a subir penosamente o fim do morro e chegou ao descampado onde avistei uma casa de telhas de barro e brancas. Logo que desci, o homem chegou junto de mim, esticou a mão e se apresentou:

---- Meu nome é Ascânio e esta – Apontou na direção da casa - é a minha humilde moradia.

Fechei bem o carro e o segui para dentro da casa. Entrei e senti um aroma de flores silvestres, misturado com o cheiro de comida fresquinha. Não havia energia elétrica e um lampião a gás iluminava a sala cheia de quadros, esculturas e outras peças de artesanato. Alguns bancos e cadeiras de madeira envolviam uma mesa tosca no meio da qual sobressaia uma peça em forma de disco. Seguimos para a cozinha, e ele me falou da chuva como uma bênção do céu, e me serviu uma deliciosa janta composta de couve, angu, arroz, feijão e inhame.

---- Não como carne. Sou contra matar para sobreviver. As plantas existem para cumprir esta missão. – disse-me ele, enchendo o prato de inhame.

Mais tarde, ele me mostrou uma cama feita de bambu, pesa no piso e com um colchão de palha e capim. Explicou:

---- Vai estranhar dormir neste colchão. Mas vai se sentir bem amanhã. O travesseiro é de paina. Por aí fazem travesseiros de pena de galinha. Não gosto. Dá muito piolhinho.

Eu sorri e fui dormir. Acordei cedo no dia seguinte com o cheiro de café tomando conta da casa. Pude, então, observar melhor o meu anfitrião: beirando os sessenta anos, ele tinha os cabelos longos, cacheados e grisalhos nas raízes. Sua pele era rendada e as pregas se acentuavam mais na fronte, pois a barba que descia das maçãs do rosto escondia o resto dos vincos que o tempo lhe impregnou. Seus olhos pequeninos e verdes pareciam enxergar muito longe, como os do gavião que olha a presa do alto.

Tomei café com broa, agradeci a hospitalidade e desci na direção da cidade. Procurei, primeiro, uma oficina mecânica e descobri que o defeito do carro eram duas velas que estavam queimadas. Deixei o carro arrumando e iniciei meu trabalho a pé. Depois do almoço, peguei o companheiro de viagens e fui para a praça ao lado da igreja descansar. Mas, o velho Ascânio não saia da minha mente. À noite fui para uma pousada e, como bom vendedor, fiz amizade com o gerente.Lá pelas vinte horas, indaguei-lhe sobre o meu anjo da guarda da noite anterior.

O gerente, um sujeito muito branco e gordinho, que se chamava Felisberto, me encarou com os olhos arregalados e exclamou:

---- Jesus Cristo!

---- O que foi homem? – Perguntei, meio sem jeito.

Felisberto suspirou e comentou:

---- O Ascânio desceu do céu de novo.

Soltei o corpo na a poltrona, entre curioso e assustado, e pedi ao Felisberto que me esclarecesse aquele negócio de que o Ascânio havia descido de novo do céu. Ele olhou-me zombeteiro e disse:

---- O Ascânio já não pertence a este mundo faz um bom tempo. Mas, de vez em quando, desce de onde está para ajudar as pessoas. Parece que você foi escolhido na noite de ontem.

Foi assim que ouvi a história de Ascânio. Ele era daqueles sujeitos prosaicos, com destino certo, vagando pelas ruas estreitas da pequena São Tomé das Letras. Gostava de perambular pelos caminhos difíceis e cobertos de pedras daquela cidade feita sobre as montanhas, envolta nos mistérios apregoados por notívagos apreciadores do haxixe. Ele sabia de cor e salteado o nome de todos os moradores da cidade e conhecia cada pedra colocada nas suas vias ou nos seus prédios. Sua aparência era exatamente como a que se me apresentou naquela noite, mas seus olhos já estavam cansados e não suportavam mais o brilho incandescente do sol, disse-me Felisberto.

A casa de Ascânio ficava no alto, em um descampado com vista para o imenso vale cheio de cachoeiras que mais pareciam fiapos de tecido branco saindo das entranhas da terra. Era uma casa toda coberta de telhas coloniais e rodeada de árvores nativas e frutíferas. Ascânio a havia recebido de herança dos seus avós - porque pai não tivera, mas somente a mãe que morrera quando ele tinha apenas seis anos -. No imenso quintal que se estendia até a beirada da planície, ele plantava verduras e flores, criava minhocas e galinhas, com as quais arranjava o seu sustento.

Foi no outono de 1962 que Ascânio entendeu que estava na hora de comprar um chapéu de abas largas e um capote longo. O chapéu, além da utilidade que já definira no seu espírito, serviria ainda para proteger seus olhos cansados do sol, e o casaco aquecê-lo-ia nos longos dias de frio daquelas montanhas. O chapéu não foi difícil de encontrar. Comprou-o numa loja de produtos agrícolas onde adquiria todos os anos um par de botinas. Mas a procura pelo casaco foi árdua. Nenhuma loja da cidade tinha casacos longos para vender. Os vendedores e vendedoras tentavam empurrar-lhe blusas de lã, jaquetas, japonas:

---- Olha essa blusa que finura, Ascânio...

---- Ah, essa não serve. – Dizia com desalento, olhando as ofertas de agasalhos da loja – Quero um capote comprido e que desça até a canela.

---- Bom, Ascânio – diziam os vendedores – Esse tipo de roupa você só vai encontrar em Caxambu.

Ascânio deixava a loja frustrado. Não iria até Caxambu para comprar o seu capote. Avesso a viagens, era uma figura folclórica quanto ao gosto de não sair de São Tomé por nada deste mundo. Desde muito moço afirmava que um dia iria voar e, quando conseguisse, toda a gente da cidade poderia ver. Essa seria a sua única viagem. Ao longo do tempo as pessoas fizeram galhofas dele por conta dessa esquisitice, e ele respondia:

---- Vocês vão ver só quando eu voar. Vou para bem longe e vocês todos vão ficar aqui feitos bobos, com inveja.

Diziam as más línguas, naquela época, que ele gostava da “erva maldita” e a cultivava no meio das suas flores e verduras. Essa fofoca lhe rendeu uma operação policial que vasculhou toda a sua casa e pisoteou todos os seus canteiros. Ficou aborrecido por muitos dias. Mas, como não fora moldado para guardar mágoas ou engendrar vinganças contra as pessoas, logo esqueceu o sucedido e continuou a cuidar da vida.

Três vezes por semana, pela manhã, colhia flores e verduras, ajeitava tudo em molhos, colocava no carrinho de madeira junto aos ovos caipira e ia para a praça vender. Antes das onze horas o carrinho já estava vazio. Sentia-se, assim, realizado em continuar o ofício dos seus avôs.

Cada galinha do seu quintal botava em média três ovos por dia e o segredo eram as minhocas suculentas que Ascânio lhes dava. Três vezes ao dia a gritaria das galinhas chamava atenção dos vizinhos: às seis horas da manhã, ao meio-dia e às seis horas da tarde. Como um relógio exato, elas anunciavam, aos berros, novos ovos quentinhos.

---- Seis da manhã. Acorda para trabalhar que as galinhas do Ascânio já estão botando. - Afirmava a vizinha do lado para o seu marido, enquanto abria a janela.

---- Já vou, mulher. Nem adianta mesmo querer ficar na cama com essa banda de galinhas.

Os ladrões de galinha da cidade, mesmo sabendo que Ascânio não era um homem de violências, nunca ousaram invadir seu quintal, pois era fala geral que na sua casa moravam seres de outro mundo. Ele sabia disso e deixava a imaginação do povo fluir. Na praça, por muitos anos, contava que tinha sido escolhido para voar até as estrelas. Descrevia, em detalhes, que havia sido visitado por seres brilhantes e que passeou com eles numa nave prateada. Antes de eles irem embora, ensinaram-lhe novas técnicas para o cultivo das plantas e o cuidado com as galinhas. Foi assim que passou a criar minhocas, as galinhas passaram a botar três vezes por dia e as folhas das suas couves adquiriram um tom esverdeado escuro e o tamanho de um metro cada uma. Suas galinhas só morriam de velhice e ele as enterrava no meio das plantas para servirem de adubo.

Ascânio não achou o capote em nenhuma loja da cidade, mas descobriu um meio de adquiri-lo sem ter que viajar. Comprou seis metros de linho preto, mais seis metros malha, trinta e seis botões metálicos, foi até a costureira e a convenceu a fazer a peça como ele queria: comprida, larga, reforçada, com seis botões em cada manga e doze de cada lado para abotoar o casaco como quisesse. Ela lhe pediu o olho da cara pelo trabalho, mas ele nem se importou e em vinte dias a peça estava pronta. Estreou-a numa noite de muita serração e andou pela cidade orgulhoso da sua nova indumentária. Ao passar pelas ruas, com o chapéu de abas largas, com o capote fechado e os botões brilhando no meio da fumaça, as pessoas demoraram a reconhecê-lo e, quando o fizeram, muitos gritaram:

---- Hei, Ascânio, você esta parecendo um cavaleiro!

Ele respondia com uma reverência, sorria e continuava seu trajeto com a missão de percorrer todas as ruas da cidade. Assim, passou toda a metade do outono e Ascânio estava feliz. Contudo, numa noite em que o céu estava pipocado de estrelas e o vento zunindo nas orelhas, o povo estava todo reunido na praça, pois era festa junina, fogueira acesa, quentão, pipoca e dança de quadrilha. Muita gente no meio da festança começou a falar que as galinhas do Ascânio estavam gritando sem parar como se fossem botar ovos àquela hora da noite. No início, não deram importância para o fato inusitado, mas começaram a desconfiar de que algo estava errado quando mais e mais gente chegava com a mesma notícia. Enfim, formou-se um grande grupo de homens, mulheres e crianças que rumou na direção da casa de Ascânio. Lá chegando, constataram, surpreendidos, um total silêncio. Mas algo havia mudado radicalmente: a casa, com tudo à sua volta, havia desaparecido. No lugar onde estava a habitação de Ascânio só havia um descampado de terra vermelha e mole.

---- Cruz-credo! – gritou o açougueiro com os olhos arregalados – Onde foi parar a casa do Ascânio?

Ninguém sabia explicar o que estava acontecendo e as especulações começaram a fluir até que um grupo de garotos pôs-se a gritar e a mostrar para o céu na direção do vale. A serração daquele lado havia se dissipado e, pairando no ar, com o capote aberto e o chapéu de abas largas, Ascânio sorria e acenava para o povo.

---- Jesus! – Exclamou o sacristão – O padre não vai acreditar, pois ele disse que só os anjos e os santos podem voar. Homens de carne e osso, só de avião.

Uma estrela se destacava no céu e o seu brilho se aproximou de Ascânio que deu uma gargalhada e foi desaparecendo no meio dele, desvanecendo lentamente, como uma luz que vai diminuindo de intensidade até se apagar. Quando já não mais se via a figura de Ascânio no céu, a luz focou o povo no meio do descampado e todos ficaram olhando para cima, pasmados. Repentinamente uma chuva de ovos despencou do alto. Eram tantos ovos que homens, mulheres e crianças ficaram ensopados e formou-se uma imensa poça amarela e pegajosa no chão. As folhas de couve flutuavam no ar descendo lentamente e as crianças agarravam-nas, e as faziam de barcos para boiar sobre o lago de ovos despedaçados. Muitos adultos, ajoelhados, evocavam a Deus e exclamavam que Ascânio havia se tornado um santo; outros, saíram correndo para casa, arrastando seus filhos com medo se serem levados pela luz que vinha do céu; enquanto alguns poucos acreditavam que ele havia sido levado por um objeto voador não identificado.

No dia seguinte, a imensa poça de clara e gema havia secado e do meio do líquido endurecido brotavam flores brancas, amarelas, vermelhas, azuis, roxas e alaranjadas que se sobressaiam entre as folhas murchas de couve.

Nunca mais Ascânio foi visto andando pela cidade e tudo que se disse e ainda se fala dele e da sua casa por aquelas bandas de pedra parece uma lenda. A única coisa que o povo sabe de verdade é que ele cumpriu o que dizia: voou para o infinito, de chapéu e vestindo seu capote com trinta e seis botões prateados. Quanto a mim, nunca vou esquecer aquela noite em que comi arroz, feijão, couve, angu e inhame ao lado de um ser de outro mundo e dormi na sua cama feita de bambu e sobre um colchão de palha e capim.

Pedro Paulo de Oliveira – Texto revisado em 01 de maio de 2013.

sábado, 20 de abril de 2013

SADOMASOQUISMO, TODA NUDEZ SERÁ CASTIGA OU 50 TONS DE CINZA?




             A nudez, como forma de expressão, existe para o ser humano desde o momento em que ele despertou para as artes. Retratar o corpo nu, de forma sensual e voluptuosa, seja na forma de pintura, escultura ou fotografia, vem desde os primórdios da civilização. Mas, existe uma outra forma artística e sutil de expressar a nudez e a sensualidade humanas: a literatura. Descrever, de forma perfeita, o ato de sedução foi sempre uma gana da maioria dos escritores de novelas, romances, contos ou poesias. " Ela veio na noite, coberta pelo aroma da natureza, e se despiu lentamente diante dos olhos atônitos de Pedro. A lua, no céu sem nuvens, reluziu no corpo de curvas, onde os seios fartos e arrebitados tremulavam e suplicavam pelo toque do macho..."

            A mulher sempre foi o alvo do desejo e das maiores descrições sensuais da literatura universal. Nelson Rodrigues, o grande Dramaturgo brasileiro, sagaz e sarcástico, soube, numa época cheia de tabus com relação ao sexo, explorar a sexualidade e a sensualidade com maestria, seja nos romances ou nas peças teatrais. Seus livros buscavam temas, para muitos, pornográficos, entre eles Anjo Pornográfico e Engraçadinha. Uma certeza plena com relação a Nelson Rodrigues: foi um exímio criador de estórias baseadas nas tragédias urbanas. Assim, como escritor, superou todas as expectativas.

           Tem se falado muito no livro Cinquenta Tons de Cinza COMO UMA REVOLUÇÃO NA LITERATURA no quesito sensualidade e ou pornografia. Não é o que diz a crítica nacional ou internacional. Contudo, como existe uma grande campanha da mídia em torno do seu lançamento, distribuição e venda, ele é o livro da moda, bem como toda a sua trilogia, pois aborda temas como o sadomasoquismo e outras taras contidas em nosso âmago. "É um livro pobre, bobo. Funciona como 'Sessão da Tarde' do BDSM", compara Heitor Werneck. "Mas a obra é válida como um flerte com esse universo. Ensina que, queira ou não queira, BDSM é uma forma de amor. E pede poesia", diz Lorde Ugg, puxando uma mulher encoleirada pela festa. O BDSM, para quem não sabe, tem o intuito de trazer prazer sexual através da troca erótica de poder, que pode ou não envolver dor, submissão, tortura psicológica, cócegas e outros ... 

                Enfim, o SADOMASOQUISMO ensinado pelo tarado Marquês de Sade, que nasceu em 1740 e morreu em 1814, e, agora, pela escritora inglesa E. L James, explora, de forma mais desvelada, as taras humanas. Nada de novo no front.

               Muito mais genuíno, literato,poético, sensual e pornográfico foi o nosso Nelson Rodrigues que disse que "Toda Nudez Será Castigada", muito mais como forma de crítica a uma sociedade hipócrita, onde os homens tem adoração e tara pela nudez (que é descrita com maestria)e, depois, se escondem sob a tutela do malfadado "bom costume". O problema maior da nossa sociedade é que tem muita gente se escondendo atrás dos bons costumes e soltando suas taras às escondidas, como nos tempos do Marquês de Sade e de Nelson Rodrigues.

Pedro Paulo de Oliveira - 20 de abril de 2013



quinta-feira, 18 de abril de 2013

O PROFUNDO DO MEU SER




Enquanto seus olhos me fitam,
Encarnam a profundidade do abismo.
É nesse instante, de desejo constante,
que a fera indomada aflora
Seduzida pelo aroma da carne fresca
Que se espalha e invade a alcova,
Gruta de segredos e desejos.


Vem o perfume das roseiras,
Um hálito que passa pelas frestas da janela,
Vindo do jardim cercado de grades,
Molhado pela chuva fina de verão.


Lá fora o soldado também se molha
E dorme sobre a calçada despedaçada.


Quero, também, adormecer. Adormeço.
Seus olhos velam meu sono,
Meu sono cheio de sonhos,
Carregado de desejo e passado.


Viajo descalço e posso voar.
No sonho eu flutuo, eu mergulho no espaço,
Caminho pelas pedras
em alamedas compridas, íngremes...
Ruas de pedra, becos estreitos.

Sinto o cheiro de pólvora,
Sinto o gosto de sangue e ouço gemidos,
A lama entra pelos meus dedos
E eu escuto o choro dos órfãos
E o grito das meninas violadas.

A guerra me envolve, não termina nunca!
Melancólica e desgraçada guerra!
Quero permanecer quieto na alcova.
Minha vista arde
e você me acaricia voluptuosa.
Tenho medo da guerra, esqueço a guerra.

Pedro Paulo de Oliveira - 18 de abril de 2013

terça-feira, 16 de abril de 2013

MAIS UM DIA

MAIS UM DIA Outro dia, mais um dia, outras coisas, mais coisas; Tantas coisas, sorrisos, dores, desejos, decepções... Meus olhos, tantos olhos para olhar, Meus passos e tantos passos para passar Minha voz e tantas vozes para ouvir Meu sorriso e tantos risos para ver Minha mãos e outras mãos para tocar Meu coração que bate e tantos corações ao meu redor. Meus olhos se abrem e vejo a luz Há tanta luz à minha volta! Que bom... É mais um dia de vida! Pedro Paulo de Oliveira - 16 de abril de 2013

terça-feira, 22 de maio de 2012

A MORTE DE PABLO NERUDA

Pablo Neruda foi um poeta extremo, do extremo da carne e da alma. Sua morte, como sua vida, deixou marcas e possibilidades para investigações. Eu, pessoalmente, não creio que haja algo extraordinário na sua morte. Contudo, seu motorista pessoal, que o acompanhou até o dia 23 de setembro de 1973, data em que morreu, 12 dias depois do pinochetaço, afirma que ele foi assassinado com uma injeção letal. Foi aberta uma investigação pela corte de justiça do Chile. É possível que Pablo Neruda, muito debilitado por conta do câncer de próstata, ao ter certeza do golpe militar e da morte do Presidente do Chile - e seu amigo pessoal Salvador Allende -, não suportou a dor na alma e se entregou à morte. Mas, como a ditadura chilena foi uma das mais cruéis da América Latina, vamos esperar os resultados da investigação. Acredito que o corpo de Neruda será exumado de onde está enterrado na Isla Negra.
MAS, O QUE NOS IMPORTA SÃO AS SUAS POESIAS, AS SUAS PALAVRAS: PARA NASCER NASCI...; OS CISNES NÃO CHORAM QUANDO MORREM...; A MULHER ENTRE AS FLORES DE AZALÉIAS...

domingo, 20 de maio de 2012

CARTA DO FÓRUM DAS ÁGUAS DE CAXAMBU

O que diferencia o ser humano dos demais animais não é a sua capacidade de destruir o meio ambiente à sua volta, fazer guerras, ser cruel, ambicioso, miserável, digno, ou dotado de amor. O que diferencia o ser humano de qualquer outro ser vivo é a sua capacidade de buscar formas que satisfaçam a sua curiosidade e de encontrar elementos capazes de transformar o meio em que vive, seja para o bem, seja para o mal. Nesse contexto de evolução do ser humano, o modelo de urbanização, ainda baseado na Revolução Industrial, não mais sustenta a lógica da vida. Estamos espremidos em ambientes de imensos conglomerados de cimentos, ferros, alumínios, vidros, borrachas, lâmpadas e máquinas de todas as espécies. Já nos foi dito que nas metrópoles, grandes e médias cidades e, até mesmo, em algumas pequenas cidades, o ser humano é denominado “animal urbano”. Será esse um termo correto para designar um ser que necessita intrinsecamente dos meios naturais para sobreviver? Será justo manter o ser humano aprisionado e entorpecido, desconhecendo seu próprio eu? No meio dos conglomerados urbanos o ser humano se insere às máquinas que ele próprio criou e, desesperado, procura espaços para desaguar suas emoções e instintos. Esses espaços nada mais são do que outras criações da “Revolução Industrial”, ou seja, os grandes shows assistidos por milhares, quando não, milhões de pessoas, marcados por produções fabulosas da tecnologia; clubes fechados e abertos, dependendo do poder econômico dos frequentadores; espaços de convivência nos shoppings (área de alimentação, salas de cinema, pequenos parques de diversões para crianças); e, por fim, as praias e praças superlotadas onde os grupos se fecham e desconhecem seus semelhantes, bem ao lado. Se revisarmos a história, veremos que este atual modelo de urbanização sempre colocou o ser humano numa disputa inglória. Não podemos afirmar que o espaço urbano de hoje é melhor ou pior que o do início da “Revolução Industrial” ou lá dos tempos do Império Romano, ou mesmo da Grécia Antiga. A sociedade sempre foi dividida em camadas sociais: ricos, médios, pobres e miseráveis. Os meios usados para se chegar a ser rico nem sempre foram os mais bonitos, saudáveis ou justos. Desde os tempos do início da civilização, seres humanos enganam, matam e escravizam em nome do poder. Não há nada de novo nessa divisão urbana onde no Brasil o exemplo mais cruel é o das favelas. Logo depois da proclamação da Lei Áurea, as famílias de negros que deixaram as grandes fazendas, foram segregadas nas periferias das cidades. Essa segregação, nas grandes metrópoles, geraram as favelas, numa mistura de mestiços de índios e negros, na sua maioria filhos bastardos dos funcionários públicos, senhores de engenho, senhores do café e senhores do leite e da carne de boi. Muitos seres humanos, ao longo do tempo, sempre sonharam com um mundo mais justo, onde não houvesse fome e todos fossem tratados igualmente na busca das necessidades comuns à sua sobrevivência. Primeiro, foram as religiões, que nasceram do medo da morte e da necessidade de se adorar um ser superior, imortal. As religiões não resolveram e nunca vão resolver os problemas sociais da humanidade. Em nome de Deus muita atrocidade foi cometida e ainda continua a ser perpetrada pelo mundo. Depois, veio a filosofia pregando a igualdade, paraísos e criando regras (Platão, Aristóteles, Sófocles...). Já no Séc. XVIII deparamo-nos com a Revolução Francesa, que foi outro engodo. Ela matou seus próprios idealizadores (Danton e Robespierre). Logo a seguir, veio a Revolução Industrial, trazendo, com ressalvas, evolução para a humanidade. No Séc. XX uma luz surgiu através de um tratado poderoso que marcou gerações e prometia mudar o mundo pregando uma sociedade sem classes, baseada nas ideias de Karl Max. Numa mistura de conceitos comunistas, e variando para socialistas, ditaduras cruéis foram implantadas pelo mundo em nome de uma sociedade mais justa, prometendo acabar com as desigualdades sociais. Tudo, também não passou engodo e provou, mais uma vez que estava em jogo a ânsia do ser humano de ter poder, governar, mandar, ser superior. Os regimes comunistas/socialistas sucumbiram todos com os seus sonhos e os seus líderes entraram para a história como governantes cruéis. Paralelamente às ditaduras, governos déspotas e regimes socialistas/comunistas, os Estados Unidos da América, a Inglaterra, a França, a Alemanha, a Itália, a Espanha e o Japão se impuseram defendendo o capitalismo, baseado no modelo de Democracia. Esse modelo perdurou, ao longo do tempo, foi se adaptando a minimodelos (social democracia, neoliberalismo, socialismo liberal, etc.). Houve uma interrupção nesse processo pelas distorções causadas pelo Nazismo. Contudo, esse modelo, ainda vigente, pregado pelos Estados Unidos e pelo bloco da Europa, também se mostrou cruel, pois não minimizou as misérias humanas, as disputas bárbaras pelo poder e as desigualdades sociais. O que mais preocupa, no entanto, com relação ao futuro da humanidade, diante do atual modelo econômico, ainda sob a liderança dos Estados Unidos e do Bloco Europeu, é o fato desses países ditos desenvolvidos estarem em situação precária financeiramente e dependentes das economias dos países em desenvolvimento, incluindo o Brasil. Existe uma clara dependência, desses países, de recursos naturais que eles não mais possuem: petróleo, ferro, madeira, água doce em abundância e território. O outro fato preponderante com relação a esses países é que eles estão endividados por conta da emissão de excesso de papéis no mercado financeiro do mundo. A discussão do FÓRUM DAS ÁGUAS tem que ser focada, em especial, em cinco pontos: 1 - A MINIMIZAÇÃO DAS DESIGULDADES ATRAVÉS DE AÇÕES SOCIAIS (RESPONSABILIDADE SOCIAL) DAS EMPRESAS E DO PODER PÚBLICO; 2 – A DESFESA DAS RESERVAS NATURAIS BRASILEIRAS, EM ESPECIAL DOS NOSSOS LENÇOIS DE ÁGUA DOCE (O FÓRUM DEFENDERÁ AS ÁGUAS DO ALTO RIO GRANDE E OS LENÇÓIS SUBTERRÂNEOS DO CIRCUITO DAS ÁGUAS); 3 – A EDUCAÇÃO E A CULTURA COMO MEIOS DE SE SAIR DA MIZÉRIA – PROPOSTAS CONCRETAS; 4 – A MULHER COMO MODELO DE UM NOVO PARADIGAMA SOCIAL; 5 – E A REINVENÇÃO DO ESPAÇO URBANO NAS IDEIAS DE JORGE LUIZ BARBOSA. A CARTA DAS ÁGUAS não deverá ser um documento pré-determinado, mas um documento CONTUNDENTE a ser composto a partir das discussões do FÓRUM BRASILEIRO DE POLÍTICAS PÚBLICAS DE CAXAMBU. Pedro Paullo de Oliveira.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

A SOCIEDADE DOS POETAS MORTOS

A sociedade dos poetas mortos – resumo do filme

O enredo do filme é delineado a partir do momento em que o professor de língua inglesa, John Keating, chega à Escola Welton. A escola Welton utilizava-se de tradicionais métodos de ensino, onde a literatura e as artes ficavam em um plano bem inferior. Com a chegada do novo professor à escola tudo começou a mudar já no primeiro dia de aula quando ele concitou os alunos a deixarem a sala, assobiando e pedindo que o chamassem de “capitão, meu capitão”. Com isso, Keating estava incentivando os alunos à ousadia, a uma mudança de postura quanto à vida e à forma de aprender.

Noutra sala Keating pediu ao aluno Neil para ler uma parte do seu livro de poesia. Logo depois, mandou os alunos rasgarem a introdução do livro. Os alunos vibraram com os métodos pouco convencionais do novo professor e, incentivados por ele, subiram nas mesas como forma de expressar suas emoções livremente.

As emoções dos alunos floresceram de forma espontânea e eles reviveram um clube de literatura ao qual havia pertencido o professor Keating e reuniram-se numa caverna próxima da escola. Posteriormente, os alunos Todd e Charlie se destacaram, sendo que o primeiro, num trabalho proposto por Keating, se deu mal devido a problemas de consciência. Keating o levou, então, a fazer exercícios de auto expressão para evoluir seus talentos artísticos. Charlie publicou uma matéria no jornal da escola favorável à entrada de meninas na Welton. Diante do diretor, chamado a dar explicações sobre a matéria, ele ofereceu Deus ao telefone para defendê-lo. O diretor ficou possesso.

Keating foi repreendido pela diretoria por conta de seus métodos de ensino e, na sala de aula, disse aos meninos para não serem estúpidos em lutar contra o sistema, transmitindo-lhes, implicitamente, que eles deveriam ser sutis e inteligentes.

Enquanto isso, outro aluno, knox, se apaixonou por uma garota de outra escola e dedicou-lhe um poema. Foi elogiado por Keating em sala de aula por escrever sobre o amor verdadeiro. Neil, outro aluno, sentiu sua vocação artística aflorar e afrontou seus pais que queriam que ele cursasse medicina. Pressionado pelo pai que lhe disse que iria alistá-lo numa academia militar, Neil cometeu suicídio.

Keating foi feito bode expiatório da morte de Neil e diante de uma investigação do conselho de Regentes de Welton foi acusado formalmente. Mas Charlie o defendeu e esmurrou Richard, seu principal acusador. Charlie, por conta dessa atitude, foi expulso da escola. Todd foi chamado diante da direção e, pressionado por seus pais, foi forçado a assinar um documento em que afirmava ser membro da Sociedade dos Poetas Mortos, que Keating abusou das suas prerrogativas e incentivou Neil a discordar dos pais. Keating foi demitido da escola.

Nolan, um dos diretores da escola e responsável pela demissão de Keating, substituiu-o na sala de aula como professor de inglês. Keating entra na sala para apanhar alguns pertences que havia deixado lá. Foi, então, que Todd revelou que ele e os meninos foram intimidados e obrigados a assinar o documento contra o professor Keating. Nolan exigiu que os alunos se calassem e que Keating se retirasse. Keating se virou para deixar a sala e Todd, pela primeira vez, sendo um aluno fechado, se abriu e gritou: “Capitão, meu capitão!” em seguida, Todd subiu na mesa e foi ordenado por Nolan a descer ou enfrentar uma expulsão. Contudo, ele não desceu e foi seguido pelos demais colegas. Nolan, vencido, tombou sobre a mesa e Keating, sorrindo, deixou a sala de aula para sempre.